quinta-feira, 5 de novembro de 2015

‘Se não fosse o turismo, a economia estaria um caos’

O setor varejista do Rio Grande do Norte deixou de faturar, entre agosto de 2014 e 2015,  R$ 709 milhões em vendas, segundo a Federação de Comércio, Bens, Serviços e Turismo do Rio Grande do Norte (Fecomercio/RN). Com a econômica brasileira, com inflação e juros e alta, escassez de crédito e aumento do desemprego, o poder de consumo arrefeceu, impactando diretamente os setores de comércio e serviços, que representam mais de 40% do Produto Interno Bruto (PIB) potiguar. As expectativas do setor estão em baixa até mesmo para o período de final de ano, como diminuição nas contratações temporárias – 30% das vagas abertas no último bimestre de 2014. Nesta entrevista, o  presidente da Fecomercio/RN, Marcelo Queiroz, aposta em um plano “B” para a economia neste final de ano: o turismo, que deve crescer com a disparada do dólar. O panorama econômico para 2016 será discutidas na próxima segunda-feira (9), durante o seminário Motores do Desenvolvimento, que acontece a partir das 8h, na Casa da Indústria. Eis a entrevista:
Emanuel AmaralMarcelo Queiroz - presidente da Fecomercio/RN
Marcelo Queiroz - presidente da Fecomercio/RN

No final de outubro, o IBGE divulgou uma retração acumulada de 2,6% em 2015 nos setores de comércio e serviços do RN. Para a Fecomércio, o que motivou este encolhimento? É possível dizer quanto o setor deixou de gerar neste ano?

Segundo dados mais recentes do IBGE de que dispomos, o chamado Comércio Varejista Ampliado do RN teve queda de 5,5% nas vendas  em agosto. Com isso, o acumulado do ano já atinge retração de 2,6%. Se considerarmos que até agosto do ano passado, tínhamos um crescimento acumulado de 1,7% nas vendas, notamos que perdemos 4,3 pontos percentuais no faturamento do varejo. Em termos de faturamento, cada ponto percentual desse representa, em um ano, cerca de R$ 165 milhões, ou seja, o Varejo Ampliado potiguar perdeu algo em torno de R$ 709 milhões em vendas entre agosto do ano passado e agosto deste ano. O alento que temos é que os dados potiguares, no entanto, ainda são melhores que as médias nacionais, que ficaram em -9,6% em julho e de      -6,9% no acumulado do ano. Praticamente todos os setores registram quedas. Mas notamos que aqueles segmentos que são mais dependentes do crédito estão vendo suas vendas despencarem. É o caso, por exemplo, dos setores de Veículos, motos, partes e peças e de Material de construção que registraram queda de -15,7% e -9,1%, respectivamente. Móveis e eletrodomésticos, com queda de 18,6% e Livros, jornais, revistas e papelaria, com retração de 15,6% também vão mal. Mas um dos principais indicadores de que a retração é generalizada é o fato de que o setor de Hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebidas e fumo, que vinha se sustentando com variações positivas ou estagnadas em agosto teve queda de 4,8%. Claro que estes números estão ligados ao cenário de inflação em alta, juros nas alturas, crédito caro e escasso, aumento do endividamento das famílias e aumento do desemprego.

Há alguns anos, o Nordeste vinha surfando na onda do aumento do consumo, com as vendas em alta. Em que momento a crise começou a se alastrar também para estes consumidores?
Por ser a região com menor renda per capita do país, o Nordeste também concentra as maiores fatias de público nas classes C, D e E. Estas foram as classes que sustentaram o aumento de consumo no país  nos últimos dez, doze anos. Mas era óbvio que isso seria finito. E o fardo sobre esses consumidores começou a pesar quando começou a faltar emprego, a inflação começou a ressurgir (onerando o custo de itens básicos como alimentação) e tarifas básicas como energia elétrica começaram a subir. Como o orçamento dessas famílias é mais apertado, qualquer variação nestes itens pesa mais. Deixa de sobrar dinheiro, surge a inadimplência e o consumo míngua.

De acordo com o Serasa Experian, o índice de inadimplência do consumidor teve aumento de 16% entre janeiro e agosto deste ano, se comparado ao mesmo período do ano passado. O comércio potiguar tem sentido este endividamento e, por conseguinte, uma retração ainda maior do poder de consumo?

Claro. Embora uma boa parcela desta inadimplência seja com as companhias de água, energia elétrica e telefonia, muito dela sobra mesmo é para o comércio. Empresas de vários segmentos têm visto seus níveis de inadimplência dobrar nos últimos meses. Há empresas onde este percentual atinge 8%, 10%. Considerando as margens de lucro cada vez mais apertadas do varejo no plano nacional, são percentuais quase insuportáveis.

Sabe-se que, mesmo com a crise, as pessoas não deixam de consumir, mas priorizam e pesquisam mais. Dentro do comércio, quais itens têm sido deixados “de lado” pelo consumidor potiguar? Quais segmentos são os mais afetados?
Não temos uma lista detalhada. Mas o que se observa é que, como eu já disse, itens mais caros, que dependem de crédito para serem adquiridos, há muito sentem mais fortemente a retração no consumo. Encaixam-se aí eletrodomésticos, veículos e materiais de construção, por exemplo. Itens considerados supérfluos – e aí isso varia muito de consumidor para consumidor, porque o que é supérfluo para um pode ser essencial para o outro – também tendem a ser relegados. Por fim, o que se observa é a redução do que chamamos de “ticket médio” do consumidor, que é reflexo direto da troca de marcas mais caras por marcas mais baratas e até mesmo na redução de quantidades dos itens comprados.

Apesar da queda, o Caged de setembro mostrou que o setor de serviços e agropecuária foram os únicos a manter o saldo positivo de empregos no acumulado do ano. Como o setor de serviços consegue se manter contratando?

Isso acontece, a nosso ver, graças ao bom momento que o turismo tem vivido. E precisamos comemorar muito isso. Se não fosse o turismo em alta agora, nossa economia estaria realmente  em um momento de caos. E o nosso turismo tem se destacado positivamente basicamente por dois motivos. O primeiro é que a redução do ICMS sobre o QAV realmente incrementou o número de voos e reduziu os preços das passagens aéreas para Natal, deixando o destino mais competitivo. O segundo é que, com o dólar em alta, o turismo doméstico tem se sobressaído ao turismo internacional, e Natal sempre se destaca como um dos destinos preferidos dos brasileiros. Desde julho que nossos hoteis e pousadas têm registrados boas taxas de ocupação e as perspectivas para a alta estação que se avizinha são muito boas. Aliás, esta pode ser uma tábua de salvação para o comércio, que na esteira do bom movimetno turístico, ainda acalenta o sonho de fechar o ano com números não tão ruins como se poderia esperar.

Outro ponto que mostra a recessão dos setores de comércio e serviços é a diminuição na expectativa de contratações temporárias para o final do ano. A Fecomércio já sabe quantas vagas, em média, serão abertas? Os comerciantes já iniciaram esta contratação ou vão postergá-la? 

Estimamos que devem ser abertas entre mil e 1.500 vagas temporárias em todo o estado este ano. No ano passado, foram cerca de 6 mil vagas. As contratações, que começam normalmente no início de outubro, só devem ter um fluxo maior a partir da segunda quinzena de novembro, exatamente quando o comércio deve começar a sentir o bom movimento turístico.

Há perspectivas que o cenário seja melhor em 2016 para o comércio e o setor de serviços? Do que dependeria a melhora da economia?

A melhora da nossa economia depende de os governos se reequilibrarem e reorganizarem o país. É preciso reduzir juros, retomar os investimentos públicos e fomentar a atividade produtiva, estimulando a abertura de vagas de emprego e a consequente geração de renda. Sem isso, não há como melhorar o comércio. Infelizmente, os economistas e especialistas dizem que 2016 também já é um ano perdido. Eu sou mais otimista. Acredito que poderemos começar a retomada já no ano que vem. Mas é preciso os governos, nas suas três esferas e em todos os poderes, se mexerem.

Programação

Tema: Brasil, vamos crescer!
Quando? 9 de novembro de 2015
Onde? Auditório Albano Franco, Casa da Indústria do Rio Grande do Norte (Av. Senador Salgado Filho, nº 2860).
Inscrições gratuitas: 4006-6120 ou 40066121, das 8h às 18h

8h – Pronunciamentos
Amaro Sales, presidente da Federação da Indústria do RN
Henrique Alves, ministro do Turismo
Robinson Faria, governador do Estado do RN

9h – Palestra “Crise de credibilidade e alternativas políticas”
Palestrante: Eliane Cantanhêde
Colunista do jornal Estado de São Paulo e comentarista da GloboNews

10h – Palestra “Perspectivas do Brasil diante da crise”
Palestrante: Luiz Carlos Mendonça de Barros
Doutor em economia pela Unicamp, ex-presidente do BNDES, ex-diretor do Banco Central e ministro das Comunicações durante o governo Fernando Henrique Cardoso
Mediador: Amaro Sales

12h – Momento econômico e perspectivas para o Estado do Rio Grande do Norte
Palestrante: Gustavo Nogueira,  secretário de Estado do Planejamento e das Finanças

12h –  Momento econômico e saída da crise para os municípios
Palestrante: Virgínia Ferreira, secretária de Planejamento do município de Natal
Mediador: Pedro Terceir o de Melo, vice-presidente da Fiern

13h – Encerramento

Fonte: Tribuna do Norte
Postagem de Josimar Lopes

0 comentários


EnviarEmoticon

Próxima Proxima
Anterior Anterior